Crónica: de Natividade Ribeiro
Eva
Inverno rigoroso. De frio e chuva. Comecei a ler Paraíso Perdido, de John Milton. Lentamente. Tirava notas, ia ao dicionário, transcrevia passagens. Um deleite. Pela manhã. No silêncio da casa. Só na primavera cheguei ao Livro VIII. O sol desejado entrava pela janela, de onde via os quatro gatos que habitavam o pátio. Numa dessas manhãs, dormindo sobre a placa de betão dos arrumos, cada um na sua posição: de lado com o corpo muito esticado; de lado e encolhido; de barriga para baixo esticado; de barriga para cima encolhido. No langor do calorzinho primaveril. Uma imagem de paraíso alcançável. Ouvia música oriental em compassos de embalo. Hinos de meditação. Pensei muito em Eva neste Livro VIII. Eva, a mulher que comeu a maçã proibida. Não, não foi por fraqueza que Eva desobedeceu a Deus, por tentação do Demo, que dizem ser Lilith feita serpente. Foi a grande intuição (qualidade dada por Deus, mas desvalorizada por Ele) que a levou ao ato de desobediência. Eva, mulher-ave, semente na humanidade, também como Lilith, destemida e forte, preferiu a dor da sua feminilidade à sujeição. Foi por serem questionadoras da liberdade das suas vontades, dos seus desejos e medos noturnos e diurnos.Deixemos de dizer que Eva cometeu o maior pecado. O original. E que Lilith foi a serpente tentadora do seu ato. Ousado foi o ato de Eva. Queria saber enfrentar o bem e o mal, ganhar a tranquilidade interior sem submissão. Desobediência para que fôssemos humanos, para que ganhássemos a riqueza e a inquietude do verbo. A harmonia dos contrários: dor e alegria; flores e sombras nos nossos jardins com frutos não proibidos. Para que toda a vida ascendêssemos à sabedoria. De que serviria ser deusa entre deuses e nunca ser deusa? Ter a adoração de uma corte de anjos sem nunca deixar de ser o humano feito de uma ínfima parte de Adão – sendo a cópia mais bela? Na transgressão de Eva ganhámos corpo e alma. Sermos homem-mulher-amor. O poema de “versos espontâneos impremeditados”, aprendendo a escutar o espírito dos dias e das noites; a terra e o céu.
Voltava à leitura de Paraíso Perdido. Notificações faziam-me clicar no ecrã. Aquele era o dia mundial da dança. Todos os dias eram dias mundiais de qualquer coisa. Os posts afastavam-me do Paraíso Perdido e de Eva e da música que me acompanhava. Percebia o desperdício de tempo a olhar para o ecrã e voltava à obra maior. Lembrava-me de Lilith, a primeira mulher de Adão, feita do mesmo barro e que também não aceitou a submissão. Lilith, apenas citada uma vez na Bíblia. Juntava as duas, Lilith e Eva: à insubmissão, ao não quererem que lhes ditassem como deveriam ser. A conformarem-se com o destino, perdendo a sua identidade. Às vezes, a leitura de Paraíso Perdido prolongava-se pela tarde. Parava e ia comer uma maçã rubra e doce. Voltava a pensar em Eva. Eu não sabia dizer o meu fruto preferido. Se tempo de amoras, amoras; se tempo de uvas, uvas; se tempo de pêssegos, pêssegos; se …, melão; se…, peras; se, … dióspiros; … Todos os frutos me faziam cair na tentação, quando pela sua doçura e textura os sentidos se ampliavam. Mas a maçã presente na dieta diária o ano inteiro. Em cada dentada na fragrância voluptuosa que mata fome e sede, a exaltação da rebeldia de Lilith, da desobediência de Eva. O desafiar da árvore inultrapassável. Inalcançável.Lilith e Eva escolheram os seus frutos da Liberdade. Paraísos e infernos encontrados por suas mãos.
Poesia de Millicent Borges Accardi
E Assim, Ela Dança
Uma serpente, um pássaro Zu,
Lillith cresce de uma árvore huluppu.
Antes de nascer, já era uma mulher desprezada.
Com madeira, ela constrói-se
num trono, para colher
um ninho de si própria, parte serpente,
parte pássaro, a base da árvore
e o topo da árvore encontram-se,
com um ninho como uma coroa Lilith,
uma mulher com pés de pássaro, um demónio álacre
confinado numa árvore, ambos estendidos
e recolhidos. Ela é o
destino de toda a sabedoria, a melhor
exceção, “a outra mulher”
antes de haver outra mulher.
Como pode isso ser? O seu signo é
a noite e o demónio. Ela tem
as suas próprias opiniões. Uma língua que
se solta à sua vontade, não
quando convidada a entrar. Lilith está coberta
de espinhos, as suas paredes envoltas por
cardos e espinhos. Ela torna-se
num jardim para chacais e avestruzes.
Assombrando-se, uma gata selvagem
que dorme com o deserto, dança
com animais, que se chamam uns aos outros:
Lilith chama-os e responde-lhes, e encontra
um lugar para descansar onde há
corujas barulhentas e ovos suavemente postos,
cujas cascas ainda não endureceram.
Crítica Literária:
Mãe de Pedras de Avelina da Silveira
por Paula de Sousa Lima
Este romance de Avelina da Silveira vem, certamente, consolidar a voz de uma escritora que só há pouco se começou a destacar no nosso meio literário, na área da ficção.
Avelina da Silveira apresenta-se a si mesma não como escritora, mas como alguém que conta histórias; do livro diz que se trata de “ficção especulativa”. Quanto à primeira consideração, discordo, pois quem escreve uma história aliciante e bem estruturada, deve afirmar-se como escritora. De facto, ser escritor/a não é necessariamente desfiar metáforas ou fazer da obra um local de complexidade: há escritores que burilam mais a língua e que a inovam, e isto é louvável, mas também há os que usam a língua com simplicidade para narrar histórias cativantes, e isto também é louvável. Quanto à segunda consideração, confesso que só sei o que é “ficção especulativa” porque a Avelina mo explicou. Creio, porém, que Mãe de Pedras tanto vale contextualizado nesse tipo de ficção como fora dela – este livro vale por si, enquanto literatura, pela história que desenvolve e que nos envolve.
Dividido em quatro partes, adentro das quais se sucedem trinta e dois capítulos, o romance anuncia-se com um suposto excerto de um “manual de ensino do ano 2387”. Tal excerto remete, de imediato, a obra para um futuro imaginado, o que poderia resultar em ficção científica, mas resulta numa utopia com contornos épicos. O futuro apresentado, porém, é uma criação ficcional imaginada com tal consistência que nos faz crer que tem efetivamente fundamento científico. Antes de prosseguir, quero chamar a atenção para o excerto que anuncia o livro, pois ele dá início a Mãe de Pedras de forma particularmente bela, fazendo eco do Génesis, referência oportuna, pois a primeira parte do romance é também a de um tempo inicial, com contornos míticos: “No princípio, as pedras eram mágicas. A primeira Mãe de Pedras era conhecida por muitos nomes e ela percorreu a terra num tempo chamado Mesolítico.”
Assim, o romance não entra abruptamente no futuro, antes, na primeira parte, convoca um passado longínquo, sedimentando uma espécie de atemporalidade da figura destacada: a Mãe de Pedras. A narrativa referente a este primeiro período, o do Mesolítico, é feita de pormenores de tal forma precisos que nos faz crer estarmos no tempo evocado. Aí começa a saga de mulheres dotadas de poderes que lhes são conferidos por certas pedras (mágicas?), sofrendo, em contato com tais pedras, uma transformação física de despojamento (até do cabelo), à qual se associam poderes como a longevidade, a inteligência incomum e a capacidade de matar. A força de vontade e a capacidade organizativa são outros atributos destas mulheres, que lhes servirão para virem a modificar o destino da humanidade, o que se verifica no final do romance, pela capacidade estratégica da Mãe de Pedras (líder de Talea, organização feminina/feminista mundialmente poderosa), nascida no século XX, mas que atravessa quatro séculos.
A segunda parte da obra abre com a presença da açoriana Sofia, mulher aparentemente comum, que não sabe ser da linhagem da primeira Mãe de Pedras e que, confrontada com o desafio de cumprir o seu destino, o aceita de livre vontade. Depois de sujeita à transformação por via das pedras, amuleto que as mulheres de Talea trazem consigo, Sofia vai-se inteirando dos meandros desta organização unicamente feminina, cujos ínfimos pormenores são apresentados ao longo do romance. A protagonista, auxiliada pelas suas subordinadas e amigas, pois o romance é também um hino à amizade, procurará forma de modificar o funcionamento das sociedades do seu tempo, e este é alargado, pois ela vive 400 anos. O móbil para esta demanda é a agressividade masculina, responsável, segundo o romance, pelo declínio da civilização, cujos aspeto mais visíveis são as guerras e o sofrimento das mulheres às mãos de homens cruéis.
Mercê de uma série de deliberações, algumas implacáveis, da Mãe de Pedras, ao longo de quatro séculos, acaba por se estabelecer uma nova ordem mundial, onde têm primazia as mulheres e os sentimentos de empatia, amor e tolerância que lhes são próprios. Assim, como já dito, este romance impõe-se como uma utopia, dado apresentar um projeto social e político próximo da perfeição. A obra apresenta igualmente contornos épicos, pois, tal na Odisseia, é necessário ultrapassar obstáculos e sobreviver ao sofrimento para se chegar a Ítaca. A Ítaca de Avelina da Silveira é a que encontramos no final do romance – um planeta apaziguado, feliz e justo. Um planeta que assim é porque as mulheres lutaram por ele, como para tal luta a Avelina, cidadã exemplar e escritora distinta.